Filtro de café, filtro de photoshop, filtro de água, filtro de cigarro, filtro de cor, filtro de ar, filtro solar; uma rede de notícias, uma caixa de spam, a famosa "poção do amor": filtros. E os filtros de gente: o humor, o preconceito, a vergonha, o amor, a inveja; tudo são filtros.
Pela manhã, acende-se um cigarro, cujo filtro dá a falsa segurança de um fumar menos agressivo. Ferve-se a água filtrada e a despeja em um filtro de papel junto com o café, ou de pano. Senta-se à mesa e, enquanto o café esfria, passa-se a manteiga no pão, filtrando os pensamentos matinais. Selecionando, entre eles, aquilo que é relevante no momento, e buscando na memória todas as atividades para este dia.
Ligamos a tv: noticiário, um filtro daquilo que a mídia julga relevante. Alguma coisa ali nos acorda, ou aliena; apenas mais um filtro diante dos olhos. Depois de arrumados, saímos à rua. Filtro solar. Óculos de sol, pra amenizar a visão. Engraçado quando tiramos os óculos depois de um certo tempo e quase desacreditamos que toda aquela ofuscante luz esteve à nossa volta o tempo todo.
Na rua, a menina que saiu de amarelo, ainda incerta com sua escolha, repara à sua volta um aumento considerável na quantidade de pessoas vestindo amarelo; coincidência? O amante recém-separado, solitário, caminhando pelas ruas só percebe os casais, felizes, amados, andando de mãos dadas em clima de total cumplicidade. No filtro dos olhos do solteiro convicto, apenas mulheres, dezenove a vinte e cinco anos, salto alto. E o gari vê o lixo que toda a gente não vê.
Sim, é necessário filtrar a visão, o pensamento, e o café. Consciente ou inconscientemente. Mas filtros também mudam. Quando nos dizem que estamos sendo egoístas e revemos nossos atos, colocamos o filtro do outro frente a nossa visão e somos capazes de perceber aquilo que antes ignorávamos. Quando um filme nos mostra outra visão sobre algo, repensamos aquilo com um novo filtro. E filtros mudam, seja o filtro descartável do café, ou o preconceito que deixamos para trás; e é necessário questionar constantemente a validade dos filtros que usamos, ou arriscamos nos acostumar a consumir a água mal filtrada, o ato mal pensado, as palavras mal interpretadas.
Madrugada de segunda. Absolutamente ninguém nas ruas, apenas um carro que se aproxima, e já se distancia antes mesmo que se note sua presença. As luzes nas janelas dos prédios se fazem ausentes. Uns poucos solitários exibem suas silhuetas nas poucas luzes ainda acesas. O Cristo nunca brilhou tão forte, nem as estrelas. Estrelas não nos fazem sentir tão pequenos e insignificantes? E ainda assim falamos na grandeza do homem. Vai ver depende do ponto de vista. Daqui, da minha janela iluminada, mesmo com os poucos solitários e suas silhuetas, eu existo sozinha, acordada, meio a essa multidão de estrelas inaparentes. Brilhem, queridas, brilhem, é na melancolia do anonimato que sinto alegria de viver bem. Nos veremos novamente amanhã.
O quanto pode-se de fato sentir falta de algo, ou de alguém, se muito daquilo que construímos parte de nós mesmos? Se damos ao outro as qualidades que desejaríamos ter, ou ter por perto, se damos ao outro a confiança que desejamos tanto a nós...? Como separar, de fato, aquilo pelo outro provido daquilo que interpretamos como ofertado? Como lidar com os sentimentos que já nem sabemos se são reais ou resultado de fantasias absurdas de mundos ideais, sonhos e devaneios que nos ocorrem, em sã consciência ou inconscientemente? Como saber? Ou... não saber? A graça de muitas coisas está no não-saber, no inesperado, no elemento surpresa, mas............ não, não isso, não.
Eu quero saber. O que fazer em seguida, como seguir adiante, quem vale a pena deixar para trás, e aquele que devemos fazer questão, não importa o preço que se peça. Não importa.
E se o mundo pudesse ser guiado por uma Magic 8-Ball, então ela seria deus. O que ainda assim complicaria muito minhas questões atéias. Merda. Não se pode ser feliz sem pôr em cheque tudo o que antevem?
Não. Creio que não...
This is the end
beautiful friend
- Ai, tombei. Para ambos os lados, deve ser. Já que minha decisão é assumir e sumir, tudo ao mesmo tempo. A inércia é tão conveniente não é? Difícil é parar e descer. Colocar a cabeça pra funcionar e cumprir o previamente combinado. Cabeça não tá boa não, preciso de outra.
- Muito pouco tempo de viagem. Parece que mais me deixou insatisfeita que satisfeita, por isso. Mas só por isso só.
- Estranha, estranhamente emocional. Gente, pára com isso, trabalho pra fazer, não há tempo para sermos humanos aqui!
:)
sobre minha cabeça:
o mundo
a meu redor:
o mundo
entre mim e o mundo:
...
- Sempre bom variar o tipo de coisas que povoam um dia de celebração.
(Será este blog um twitter?)