Pensamentos noturnos: fragmento único

  • Tantos e-mails recebo. Gostaria que algum deles fosse para mim. E dizendo o quê? Todos os assuntos se foram. Ou fui eu quem fui, faz muita diferença? Acho que faz. Hoje estava pensando em todas as pessoas que moram no seu prédio e que eu não conheço. Elas não existem para mim. Mesmo que as veja quando estou aí, quando não estou elas nunca existiram. Como todas as pessoas despercebidas na faculdade, no caminho, no mercado da esquina, etc e etc.
  • Não posso dizer o mesmo dos assuntos, de modo geral. Mas, de alguma forma, parece que a estúpida maioria do que conversamos uns com os outros são incrivelmente dispensáveis.
  • E, ainda assim, somos seres sociais. Sim, essa afirmação novamente. De alguma forma eu não consigo me conformar com isso. Preciso do social e, no entanto, na maioria das vezes, não o suporto. Me sinto quase feliz socialmente quando leio um bom livro que dialogue comigo. Motivo pelo qual adoro fielmente Dostoiévski. Que fique claro aqui: Dostoiévski enquanto escrita. É um costume freqüente que se confundam as coisas, e muitos temos tendências a criar carinho por personalidades que não conhecemos. Mesmo que escorra o si para dentro da escrita, é ainda uma situação muito complicada.
  • Estou com dificuldades para manter a coesão, o que dizia? Certo, o livro como contato social. Soa muito melodramático? Julgo que sim, embora seja sincero. E mesmo com os livros não tenho conversado muito, toda essa falta de organização me leva a ler apenas assuntos ligados à faculdade - mesmo que seja um estudo essencialmente visual no fim das contas.
  • Não perguntamos aos livros como se sentem, o que gostam de ouvir ou os seriados que acompanham; e, no entanto, eles têm sempre algum assunto. De vez em quando clichés, revisitados ou repetitivos. Alguns livros são mais agradáveis que outros. Mais inteligentes, mais emotivos, mais diretos ou mais prolixos. No geral, livros interessam porque falam de si mesmos. De suas histórias, e nós gostamos - assim como das novelas - porque formam contraste com nossas vidas medíocres. Medíocres, no sentido de comum, mediano, não pelo sentido pejorativo.
  • A diferença entre os livros e as pessoas de carne (porque estas também falam de si) é que o livro tem sempre em vista seu receptor. De outra forma, não teriam tanto sentido existirem como publicação. E você não tem que responder a nada com palavras. A leitura e atenção são suficientes.

    O telefone também sempre toca. Não é para mim.

  • Se amizades fossem feitas assim, se eu pudesse simplesmente sentar e assisti-los conversando, ou ouvir suas histórias sem ter que comentar, aconselhar, responder, compartilhar. Nunca sei o que dizer. Como dizer que eu estou lá, mas que não tenho o que dizer? Não é como se eu não me importasse simplesmente. Essa coisa de se importar envolve tantas variantes. Complicado.

  • Esqueci a roupa molhada na máquina de lavar. Já devem ter doze horas. Vê como somos limitados?
  • 1 comentários:

    Caíssa disse...

    notas:
    livros no sentido de literatura. novelas no sentido televisivo.